quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O marco zero

Com uma gestação descoberta aos três meses, não dá para acreditar que seria uma criança dentro dos padrões. Após a mamãe curtir seis meses de gestações, realizar todos os exames (hemogramas, controle de pressão arterial e apenas uma ultrassonografia), chegou o grande dia. Guarulhos não era uma cidade tão longe da residência da recente família. O hospital escolhido era um dos melhores da cidade mesmo com sua estranha localização. Sábado, 14 de setembro de 1991, sete horas. Foi o começo de um longo e dolorido final de semana. As contrações apareceram, alguns indícios de que a grande hora estava perto. A família deslocou-se para a maternidade. A nova mamãe foi internada. Terminou o sábado e nenhuma novidade. Domingo, 15 de setembro de 1991. Pela manhã, algumas verificações, visitas dos familiares e nada do parto. O domingo foi longo e dolorido. As contrações aumentavam. Não podia mais conter a expectativa. 18h50min teve uma vontade de ir ao banheiro. Foi e levou uma pequena bronca da enfermeira. 19h00min começa o trabalho de parto. Nesse caso podemos realmente chamar de trabalho. Por mais que tentasse, nada fazia com que o bebê nascesse. Foi necessário duas enfermeiras “montadas” sobre a futura mamãe e um pequeno instrumento para auxiliar a retirada do bebê. Seus quatro quilos e alguns gramas estavam às 19h15min ao lado do rosto daquela que chamaria de mãe.
Gordo, um pouco roxo, com a cabeça torta e gritando muito. Essa foi a primeira aparência do protagonista desta história.
No berçário se destacava entre os bebês ali presentes. Não precisaria nem de identificação, se não fossem as regras de segurança. Todos sabiam que aquele era o bebê esperado pela família. Primogênito e menino. Não cabia mais felicidade no coração no inexperiente papai.
Para o catolicismo, a data comemorava Nossa Senhora das Dores (futura santa de devoção). Para outras religiões, bem, nunca me preocupei em saber se existia algo importante nessa data. No campo místico (astrologia), o signo do recém-nascido é virgem, e é apenas isso que eu sei (mapas astrológicos são caros e os gratuitos não dão informações precisas, tudo me parece um verdadeiro emaranhado de símbolos e linhas coloridas). Chegou em casa em uma quarta-feira, 18 de setembro de 1991. E esse é o começo de uma das mais fascinantes histórias de vida que eu conheci.

sábado, 12 de setembro de 2009

Um neto. Uma avó

Não era uma típica avó. Nunca deu meias nem casaco de lã. Seus cabelos grisalhos eram escondidos pela tintura. Não fazia tantos mimos, mas estava pronta para atender qualquer chamado de seu neto. Fora consoladora, aconselhadora, companheira. Fizera bolinhos de chuva, tortas, leite com chocolate. Contara histórias, brincara e fizera dormir.
Desde que nasceu o pequeno garoto recebeu muito carinho de sua avó. As visitas eram diárias. A distância que separava a casa do garoto da casa de sua avó era menos de 200 metros. Ainda criança, o pequeno descobriu que bebês saiam da barriga das mães. Imaginava como uma pessoa grande podia sair da barriga de outra pessoa. Sua avó era e sempre foi grande. Imortal.
Todas as manhãs acordava cedo e esperava ansiosa pela ida à casa do neto e da filha. Era o café familiar. No caminho, comprava pães, e adentrava a casa, onde já a esperavam de mesa posta. Sempre precisava “acordar” o neto. Era a primeira brincadeira do dia. Passava a manhã inteira conversando com a filha e o netinho querido. Depois ia para a sua casa esperar a caçula voltar da escola. Aos finais de semana, abria a porta de sua casa para abrigar o neto que iria “pousar” à noite. Conversavam, brincavam, riam. Era a ligação de amor mais forte que o mundo já viu.
Em tempos de propagação da catapora, viu o neto adoecer. Passava dias e noites inteiras cuidando de sua preciosidade. Não se distanciava um minuto sequer. A cura chegou e a preocupação estampada em seu rosto passou.
Na época das férias escolares, saíam mãe, filha mais velha, a filha “rapinha do tacho” e o neto. Iam passar a tarde caminhando no shopping. Nem sempre tinham dinheiro para compras, então, a felicidade ficava por conta da companhia familiar. Andar de ônibus era uma aventura para todos eles. O almoço de domingo era sagrado. Assim como receber os primeiros pedaços do bolo dos aniversários do neto.
Os passeios de sábado sempre rendiam boas risadas. Sempre usava neologismos e chamava o neto por engraçados apelidos. Gurizinho da vovó era o preferido. Sempre que podia, contava que ao vê-lo na maternidade, o reconhecera pela cabeça tortinha e grande. Contava também de sua infância, e que certa vez, usava um vestido branco e novo para ir à Porto Alegre, capital de seu estado natal, e na estação, a maria-fumaça chegou e deixou seu vestido todo preto, e que não parava de chorar. Contava que fora criada por uma mãe adotiva.
As vezes, deixava o neto perceber sua angústia por não dar presentes caros, mas logo recebia um grande e forte abraço. Dava-lhe os presentes mais legais. Sua presença diária na vida do neto era o que importava.
Certo dia adoecera. Os cafés com o neto foram ficando raros. Poucas vezes podia sair com o neto. Uma nova vida estava surgindo. Lembro-me que muitas vezes, por conta do tratamento, o neto ficava sozinho em casa após a escola esperando noticias da avó que estava sob os cuidados de sua mãe. Foi o tempo em que aprendeu a ser gente. Cresceu. O neto ia a cada dia sofrendo mais por não ter a avó ao seu lado todos os dias. Ia passando uns nove meses de tratamento. O aniversário do neto se aproximava. Sabia que não poderia estar presente e nem receber a visita dele no hospital. Encomendou um bolo e fez uma festa surpresa que organizou de dentro de um hospital. Chegou o aniversário. O neto não esperava nada. Aos poucos chegaram tios, amigos e um bolo com cobertura azul e recheio de fruta. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando soube de sua avó. Ele a queria por perto, mas sabia que a teria em breve.
Mais alguns meses se passaram. Idas ao hospital eram cada vez maiores. Os cabelos grisalhos já apareciam, a tintura não era mais possível. Chegou janeiro.
Domingo ensolarado, hora de visita no hospital. Entrou a filha e o esposo. Genro, neto e filha mais nova ficou do lado de fora. O esposo saiu, e o genro entrou. Corações dispararam. O neto sentia algo estranho. Era um aperto no peito. Um vazio. Foram levados para a casa da avó paterna e no caminho ficaram sabendo: não teriam mais o riso daquela mulher. O neto chorou. O mundo estava triste. Não podia conter as lágrimas, os gritos, os soluços. Nada o acalmava. Nada o confortava. Nada o consolava. Foi para a casa. Recebeu visitas, chorou. Agarrou uma foto e tentava lembrar de todos os momentos bons vividos com a avó. Adormeceu. Foi a noite mais longa de sua vida. Amanheceu. Arrumou-se e foi para o velório. Chorou a manhã inteira. Ao redor do caixão viu todos os seus sonhos morrerem. Sentia-se só. Queria tê-la de volta. Ao ver o caixão ser enterrado quis estar junto dela. Uma nova fase de sua vida começava a partir daquele momento.
Nunca mais iria sentir o abraço, ouvir o chamando de “gurizinho de vovó”.
O aniversário foi o primeiro de tantos aniversários sem a presença de alguém tão importante em sua vida. Era a preparação. Talvez o bolo fosse o adeus, o melhor presente, e uma esperança de poder ter feito dos onze anos de convivência, os mais felizes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Desejo

Decidi que vou ter dois blogs. Não sei o motivo, mas decidi isso. Quero escrever mais. Vou colocar aqui tudo o que eu imaginar. O título veio de uma velha vontade. Tornar-me escritor. A idade é pouca mesmo, o que me caracteriza como um jovem escritor.
Colocarei em prática todas as minhas vontades. Minhas inspirações. Minha meta será postar neste blog o que pode resultar, um dia, em uma publicação impressa. Um livro sim senhor.